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Rock, UPP, Futebol e Rio de Janeiro

Publicado: novembro 25, 2011 em Brasil
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Por Duff Mckagan

da ESPN.com

Eu gostaria de iluminar vocês todos com uma história com a qual eu me deparei na semana passada no Rio de Janeiro… e que tem muito a ver com esportes.

Seja você o fã de esportes que só enxerga os EUA como eu mesmo ou tem uma visão mais global de seu envolvimento como fã, eu acho que todos nós podemos concordar que quando chega a Copa do Mundo a cada quatro anos, todos nós prestamos atenção ao futebol. Se sua atenção não é muito despertada pelo esporte, então com certeza um pouco de orgulho nacional ou curiosidade em relação às notícias loucas e bizarras e os eventos que ocorrem em tal ocasião com certeza lhe chamarão a atenção – por exemplo, como apenas um país concentrou tantas prostitutas quando a Copa do Mundo de 2006 foi na Alemanha?

A próxima Copa do Mundo (2014) será no Brasil, e as maiores cidades, São Paulo e Rio de Janeiro têm os maiores estádios, e, portanto, serão o palco do mundo.

Nota pessoal: em idos de setembro de 1984, eu me mudei de Seattle pra Los Angeles. A data é importante somente porque a Olimpíada tinha acabado de acontecer em LA e os esforços pra limpar a sujeira e o crime daquela cidade para os Jogos pararam de ser lucrativos uma vez que os turistas saíram da cidade. Muitos dos policiais sumiram também, e quando eu cheguei a Hollywood, a cidade era mais uma vez um antro de vício, crime e gangues. Por mim tudo bem, porque eu era, porra, eu só tinha 19 anos e estava afim da aventura.

Praqueles que conhecem o Rio, vocês também devem saber das enormes favelas sem lei que brotam na lateral de um morro íngreme, parando não muito longe das praias de areias brancas como açúcar. Ela também é chamada de Rocinha e é notoriamente administrada por cartéis de traficantes ‘autogovernados’.

A cidade do Rio, por si própria, será a anfitriã dos jogos Olímpicos de 2016, e com toda essa grana entrando num país como o Brasil, que é uma das economias mais pragmáticas e que mais cresce no mundo atualmente, parecia que era chegada a hora do poder público tentasse mandar uma ‘Limpeza Olímpica à La 1984’ ou algo do tipo.

Para ser mais sucinto, eu achei essa pequena nota da (agência de notícias) Reuters no jornal local:

‘Tropas de Elite da polícia apoiadas por veículos militares e helicópteros invadiram a maior favela do Rio antes do amanhecer de Domingo, a mais ambiciosa operação já realizada em uma ofensiva que visa trazer segurança à cidade litorânea há muito conhecida pela violência. A ação na Rocinha é parte de uma campanha da polícia para extirpar as gangues de traficantes fortemente armados para for a das favelas da cidade, onde eles têm dominado o poder por décadas. As autoridades se comprometeram a continuar com o choque e estabilizar a segurança no Rio antes da Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016. Os governantes estão contando com tais eventos para marcar a chegada do Brasil no hall das potências econômicas, políticas e culturais do globo. ’

Se a história se repetir, entretanto, nós provavelmente veremos um Rio de Janeiro seguro e limpo por alguns anos. Mas se você for um garoto de 19 anos em 2017, procurando por um lugar sombrio e agitado para começar uma banda, eu sugiro o Rio de Janeiro. Eu tenho certeza que muitos dos policiais já terão sumido, e mais uma vez a coisa vai pegar fogo, com certeza!

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Em Roma, tudo se compra.

Juvenal

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Das Agências Internacionais

Entre R$ 1,3 milhão e R$ 3,5 milhões. Esse seria o quanto membros do Comitê Executivo da Fifa cobram para vender seu voto na escolha das sedes da Copa do Mundo. Ontem, o jornal britânico Sunday Times revelou que pelo menos dois dos 24 integrantes da Fifa com direito a voto puseram preço para garantir o apoio.

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Quando um país recebe o mundial, os ganhos não cobrem os gastos com estádios. Mas o grau da felicidade da população aumenta.

por Simon Kuper*

No dia em que a África do Sul ganhou o direito de sediar a Copa do Mundo, em 2004, o bairro negro do Soweto, em Johanesburgo, gritou: “A grana está vindo!” Eles estavam expressando algo que os brasileiros devem ter ouvido: que sediar uma copa traz dinheiro. Em qualquer lugar que se candidate a uma Copa do Mundo, políticos tecem loas à “bonança econômica”. Falam das hordas de turistas prontos para gastar os tubos, da propaganda gratuita para as cidades-sede, dos benefícios de longo prazo que as estradas e os estádios a ser construídos vão trazer. Não surpreende que o Brasil tenha querido tanto a copa.

Mas esse argumento econômico é uma enganação. Os brasileiros vão descobrir logo. E os sul-africanos já o fizeram: a conta pela construção de estádios, em US$ 1,7 bilhão, já é 6 vezes maior que as estimativas iniciais; a quantidade de turistas esperados é bem menor que a prometida e a Fifa não vai deixar os sul-africanos pobres vender suas salsichas do lado de fora dos estádios. Que fique claro: uma copa não deixa o país mais rico.

Tipicamente, um país prestes a receber um mundial paga para que economistas-fantoches publiquem estudos dizendo que a copa vai impulsionar a economia. Já a maioria dos economistas de verdade – pagos por universidades para escrever sobre o que realmente acreditam – pensa o inverso. E faz as perguntas que os promotores de novos estádios não gostam: de onde veem os trabalhadores temporários que vão participar dessas construções? Eles não tinham emprego antes? Isso não vai deixar outras áreas com menos trabalhadores experientes? E tem mais.

Gastar com uma copa significa menos hospitais e escolas. Pior: estádios novos quase nunca produzem os benefícios prometidos. A maior parte acaba usada poucas vezes por ano. É preciso que fique claro o que significam os gastos públicos com a construção e a reforma de estádios. Trata-se de uma transferência. Benefícios que iriam para o contribuinte vão para os clubes (que ganham arenas e reformas de graça) e os torcedores (que aproveitam as casas novas ou renovadas de seus times). Depois que o contribuinte pagou por estádios melhores, provavelmente mais pessoas vão querer ver jogos neles. O Brasil pós-2014 deve testemunhar o mesmo que aconteceu na Inglaterra após a melhoria dos estádios no começo dos anos 90: a chegada de mais torcedores de classe média, de mulheres, e públicos maiores nos jogos. É verdade que a Inglaterra é mais rica que o Brasil e pôde bancar isso. Mas o Brasil hoje é mais rico que os estádios dilapidados que tem.

O preço da felicidade

Se o público do futebol crescer após 2014, porém, isso não vai significar um impulso na economia. Só uma transferência da riqueza brasileira como um todo para o futebol brasileiro. Mas o país ganha um belo extra: felicidade. O economista britânico Stefan Szymanski e seu colega Georgios Kavetsos pesquisaram dados de felicidade da população na Europa Ocidental entre 1974 e 2004, com questionários que buscam tabular isso em números, e descobriram que, depois que um país recebe um torneio como o mundial ou a Eurocopa, seus habitantes se declaram mais felizes.

O salto de felicidade é grande. O europeu médio reporta um grau de felicidade duas vezes maior por seu país ter sediado uma grande competição do que por ter feito curso superior. Para ter o mesmo impulso no grau de felicidade, só se a pessoa recebesse um grande aumento de salário. E esse ganho persiste: 4 anos depois de uma copa, cada grupo de indivíduos pesquisados estava mais feliz do que antes do torneio.

A razão disso, ao que parece, é que sediar um mundial faz com que os habitantes sintam-se mais conectados uns aos outros. Uma copa faz isso mais do que qualquer outro projeto que possa existir nas sociedades modernas. Além disso, a nação anfitriã provavelmente ganha em autoestima pelo fato de ter organizado o torneio.

Dá para argumentar que o Brasil tem coisas mais urgentes. Da mesma forma que os sul-africanos, os brasileiros podem perguntar quantas casas ganhariam sa-neamento básico com o dinheiro público que irá para a construção de estádios. E serão R$ 5 bilhões, quase 3 vezes mais do que o previsto em 2007, quando o Brasil ganhou a disputa para virar sede.

O mais importante, porém, é entender qual é o propósito de uma copa. Se é para a felicidade geral da nação, faz sentido, sim, organizar a maior festa do mundo (e ninguém é melhor nesse quesito do que vocês, brasileiros). Só não esperem ganhar dinheiro com essa festa.

* Colunista do Financial Times e autor do livro Soccernomics – (editora Tinta Negra, 2010), que será lançado em junho.